Rodrigo Pais de Almeida em entrevista

Rodrigo Pais de Almeida em entrevista

O site oficial dos Leões de Porto Salvo falou com Rodrigo Pais de Almeida, treinador principal da equipa sénior masculina, para ficar a conhecer um pouco mais do que serão os Leões de Porto Salvo versão 2018-2019 e que vão disputar pela 8ª época consecutiva a elite do Futsal Nacional – Liga Sport Zone.

Treinador de nível III (UEFA PRO) e com 38 anos, o Rodrigo já conta com um vasto percurso no Futsal e apesar de ter assumido a equipa já no decorrer da época 2017-2018, conseguiu os pontos necessários para a manutenção. Mas não é de manutenção que falaremos, mas sim de ambição e superação. De resto a nossa conversa vai para além do Futsal, não fosse o Rodrigo um homem que vê o desporto como um meio para superar objectivos que à partida seriam impensáveis.

 

LPS – O plantel e equipa técnica para a época 2018-2019 já está definido, fala-nos um pouco mais, em linhas gerais sobre o plantel?

RPA – O plantel está construído e fechado com 15 atletas e com a possibilidade de integrar mais 3 jogadores da equipa de sub 20 que irão trabalhar connosco já durante a pré temporada e com regularidade serão chamados à equipa sénior tendo em conta as necessidades da mesma e a evolução que demonstrarem no campeonato nacional de sub 20. É formado por 10 jogadores que transitam da época anterior, uma promoção da equipa de sub 20 e 4 novos jogadores contratados.
É um plantel que nos dá garantias para todas as posições possíveis quer em número, quer em qualidade, e estamos muito satisfeitos com o que foi conseguido pois permitirá a equipa jogar de diversas formas tendo em conta o adversário e os momentos de forma coletivos e individuais.

LPS – As equipas da liga SportZone estão cada vez mais a investir na qualidade dos jogadores, e também nas equipas técnicas…. Quais foram as características essenciais que te levaram a escolheres a tua equipa técnica e também estes jogadores?

RPA – O meu critério para escolha da equipa técnica passa sempre por dois aspetos: Confiança e Lealdade. Mais do que serem pessoas que eu conheça muito bem, ou que tenham skills idênticas ou disformes das minhas, o que procuro são pessoas que confiem em mim e em que eu possa confiar, e que sejam leais a mim, ao clube e à equipa! O Nuno Duarte (Treinador Adjunto) e o Rui Monteiro (Treinador de Guarda Redes) são pessoas da minha total confiança e que sempre foram leais quer como jogadores pois ambos estiveram ligados a equipas orientadas por mim ainda como jogadores, bem como integrantes de equipas técnicas que liderei. Paralelamente são pessoas experientes, muito conhecedoras do jogo e que complementam áreas de treino e de jogo essenciais para a evolução e desenvolvimento de uma equipa liderada por mim. Este ano decidi reforçar a minha equipa técnica com mais um elemento, o Marco Oliveira. O Marco vem integrar a equipa como Fisiologista com a responsabilidade de apoiar e desenvolver a componente atlética individual e coletiva da equipa, da condição e acompanhamento da evolução funcional de cada atleta, da avaliação sistemática dos mesmos, mas também de apoiar no scouting, organização do treino e de desafiar o treinador para outras áreas que tem apostado menos na componente do planeamento e execução do treino.
Quanto aos jogadores, tínhamos uma prioridade inicial na construção do plantel para a época 2018/2019 que passava por renovar o contrato com a estrutura do plantel que definimos como base das ultimas 8 jornadas da época anterior. Com maior ou menor dificuldade foi possível manter essa base de trabalho que está identificada com o clube e sua história e com o que o seu treinador pensa.
A partir daí tentámos perceber como poderíamos reforçar o plantel com qualidade que nos permita alcançar os objetivos ambiciosos que nos foram propostos pela Direção do CRLPS respeitando critérios de exigência individuais e coletivos de comportamentos, conduta, desempenho e performance.
Contratámos pouco, mas contratamos bem e de uma forma cirúrgica dotando o plantel de mais e acreditamos nós melhores soluções para o que pretendemos.

LPS – Apesar de cada vez mais táctico, o futsal é por vezes um jogo visceralmente rápido.. Onde as emoções são superiores à razão….
Achas que a “liberdade” técnica de alguns jogadores que contribuem para o espetáculo, vai ter lugar na tua equipa?

RPA – Sempre. Não acredito num futsal muito geométrico, muito planeado, em que as peças todas se movam em conformidade, harmonia e unidade. Acho tudo isso muito previsível. Gosto de ter uma equipa organizada dentro do que é a proposta de jogo que queremos apresentar mas sempre com graus de liberdade definidos no tempo, no espaço e em quem os interpreta, o mais imprevisível possível para os nossos adversários.
Quando me perguntam pelo meu Modelo ou Ideia de jogo gosto de afirmar que não o tenho e isso é genuíno não é apenas para chocar ou ser diferente, e sinceramente não concebo como é que um treinador pode agarrar-se a um modelo de jogo e segui-lo mais do que cinco segundos. As minhas equipas têm princípios e planos. Os jogadores são treinados para pensarem e para agirem de acordo com os princípios e planos com graus de liberdade conhecidos pelo grupo e treinados em grupo. São treinados para decidir em função da análise constante do contexto de jogo que se lhes depara do ponto de vista individual e coletivo em cada momento do jogo, e para o fazerem o mais rapidamente possível por forma a antecipar-se a uma resposta possível do adversário. Enquadrar os atletas e a equipa sem estar obcecado pelo posicionamento geral em campo ou pela forma de interagir face aos N adversários que vamos defrontando ao longo da temporada, mas pelo automatismo grupal de decisão face ao entendimento cognitivo do momento e da decisão que melhor serve naquele instante (quanto mais curto melhor), e em face daquele que foi o entendimento individual e traduzido por ações individuais que constituem a sua forma de atuar em grupo.
Neste contexto, como é percetível a liberdade técnica é “quase” total e permanente.

LPS – És um treinador que vive o futsal… Mas também o desporto no geral…. Há poucas semanas participaste e terminaste com êxito, aquela que é considerada uma das mais duras provas desportivas.. o Ironman…
Conta-me como começaste a praticar triatlo….?

RPA – Foi uma evolução natural. Há cerca de cinco anos estava literalmente obeso. Comecei uma dieta e a praticar corrida. Comecei a correr 5 minutos… Cheguei à Maratona… às Maratonas… À Ultra Maratona… Mas o treino para corrida é muito estereotipado e para quem encarava o desporto pessoal como uma forma de aliviar o stress do dia a dia, a evolução para o Triatlo (nadar, pedalar e correr) foi natural e uma forma de diversificar o tipo de esforço.

LPS – E talvez pelo inconformismo, acabas por dar o salto para o Ironman?

RPA – O Ironman é uma prova diferente de tudo o resto. É preciso um certo grau de loucura e de irresponsabilidade (como diz a minha família) para nadar 4km, pedalar 180km e no final ainda correr uma Maratona ou seja 42km. Isto tudo de seguida.
É preciso além de ser muito organizado ser se muito disciplinado e acompanhado por profissionais desde o ponto de vista técnico, psicológico, alimentação, escolha e acompanhamento do material, etc. Tenho a felicidade de ter um treinador fantástico e um grupo de treino único e espectacular.

LPS – Como foi a prova?

RPA – Foi muito duro, mas faz parte do desafio. São muitas horas de esforço no dia da prova, muitos momentos de euforia mas também momentos menos bons aos quais temos de resistir e não desistir.
É um desafio diário de vários meses de preparação que exigem muita compreensão da família também pois todos os dias antes das 6 da manhã já estas a nadar, a pedalar ou a correr. Sinceramente é um pouco como o Futsal, custa muito mais a preparação do que o jogo em si, embora no caso do Ironman estamos a falar de cerca de 20 horas de treino semanal, e uma equipa de futsal que treine esse volume de treino semanal luta para ser campeã da Europa. Eu luto apenas para me superar, como costumo dizer, para ser melhor que ontem e pior do que amanhã.

LPS – Pensas que o teu esforço e a superação podem ser as linhas que conduzam a ambição da equipa dos leões?

RPA – Que fique claro que nenhuma equipa sem esforço e sem uma vontade diária de superação atinge os objetivos que lhe são propostos e isto é válido para objetivos coletivos mas também individuais, aliás, a ordem até deve ser a inversa.
E isso tem a ver com a própria definição da palavra objetivo. Um objetivo para o ser tem de ser medível, ambicioso mas também exequível. Ou seja nem pode ser tão fácil que sem esforço o consigamos atingir, mas também não pode ser excessivamente difícil que por estarmos tão longe dele corramos o risco de nos desmotivarmos.

LPS – Praticamente todas as equipas da liga reforçaram os plantéis, como é o caso dos Leões de Porto Salvo…. Mais equilíbrio, qualidade e experiência…. Pensas que a próxima época será mais competitiva?

RPA – Penso que sim e isso decorre da própria evolução da modalidade nos últimos anos. A modalidade tem vindo a desenvolver-se muito rapidamente e os clubes têm acompanhado essa ambição de crescimento por parte das entidades federativas, com mais investimento e mais espetáculo.
O Futsal e a própria Liga Sport Zone quer queiramos quer não está na minha opinião dividido em três grupos. O grupo que luta para ser campeão onde está o Sporting e o Benfica. O grupo perseguidor com 3, 4 ou 5 equipas que querem estar sempre no Playoff e que disputam os lugares nas meias finais do mesmo. E um terceiro grupo de equipas que estão entre a despromoção e o ou os lugares que sobram para ir ao Playoff.
Se no primeiro grupo é praticamente impossível uma das restantes 12 equipas chegar, cada vez mais temos assistido ao engrossar do segundo grupo de equipas, ou seja, equipas que querem estar todos os anos nas decisões dos playoffs, das meias finais e que investem para lá chegar com uma ou outra estratégia, mas que obrigatoriamente tem de passar por mais e melhores jogadores.
O CRLPS tem estado infelizmente arredado deste segundo grupo para o terceiro de fuga à despromoção ou do restante lugar de playoff. O objetivo da próxima época é claro, estarmos e cimentarmos o lugar deste clube no segundo grupo que identifiquei.

LPS – Com internacionais, jogadores habituados a grandes palcos…. Jogadores com ADN parecido ao teu…. O que podes ambicionar com este plantel?

RPA – O que ambiciono sobretudo é um grupo de jogadores muito unido, coeso e focado em trabalhar diariamente se quiseres com o mesmo objetivo que eu tenho quando disputo uma prova, ser hoje melhor que ontem e pior do que amanhã. Conseguir agregar humores, perfis psicológicos, emoções com características de jogo individuais e coletivas que nos permitam enquanto indivíduos evoluir e construir uma verdadeira equipa à prova de bala, à prova de tudo.
A qualidade individual dos jogadores e a confiança que temos neles e na capacidade de trabalho da equipa técnica, em conjunto com as condições de trabalho que este clube nos proporciona é a garantia de que podemos ambicionar muito mais do que os últimos três anos do clube em que ficámos em 8º, e duas vezes em 11º lugar.

LPS – Sabemos que o apoio do público é tão vital para uma equipa …. O que queres dizer aos nossos sócios e adeptos……?

RPA – Para o mal, mas espero que muito mais para o bem eu sou uma pessoa da casa. Não é por acaso que já passei 4 vezes na minha carreira de treinador em ciclos do CRLPS desde as camadas base da formação até à equipa sénior. É porque além de ser sócio e de gostar deste clube, me revejo naquilo que são as suas bases. E isso permite-me analisar as coisas com um histórico diferente.
É com muita pena que tenho assistido em algumas fases das épocas a uma espécie de “divórcio” entre os sócios/adeptos e a equipa sénior masculina. Seja por resultados menos conseguidos, seja por planteis mais ou menos distantes dos sócios e da formação, seja por outros fatores.
Uma das nossas ambições e prioridades para a nova época que se inicia a 10 de Agosto de 2018 é terminar de vez com esse divórcio e vamos dar tudo mas sobretudo a cara pelos nossos sócios e adeptos. Como? Com a nossa forma e método de trabalho, por forma a sobretudo fazer novamente com que os sócios e adeptos do clube tenham orgulho da sua equipa sénior masculina. Dando aos sócios uma equipa impregnada do seu ADN enquanto pessoas e clube, uma equipa ambiciosa, rápida, intensa, lutadora, com raça e querer, e que disputará cada lance de leão ao peito como do ultimo da sua vida se tratasse.
Estou convicto que os sócios e adeptos do CRLPS vão rever-se nesta equipa como o fizeram com tantas outras de outros anos em que até disputávamos campeonatos menos prestigiantes, que vão progressivamente acompanhar a equipa em maior numero na nossa casa mas também quando estivermos a jogar longe do nosso reduto, que vamos conseguir que a nossa formação acompanhe e tenha orgulho e ambição de um dia serem jogadores desta equipa no maior campeonato nacional da modalidade… E com isso todos muito ajudarão na sua cota parte para atingir um novo degrau e patamar no futsal nacional que é realmente a nossa ambição e que acreditamos que o faremos já nesta época desportiva.